Certificado e Declaração - XI CBA


Agradecemos a todas e todos que sonharam e realizaram o XI Congresso Brasileiro de Agroecologia com a gente. Foi muito forte e simbólico ver cerca de 3.500 pessoas em território nordestino partilhando horizontalmente saberes agroecológicos, exercitando a ecologia de saberes.

Nos quatro dias de Congresso, realizado de 4 a 7 de novembro na Universidade Federal de Sergipe (UFS), Campus São Cristóvão, tivemos 2100 trabalhos aprovados e 1900 apresentações, distribuídas em 73 Tapiris de Saberes, dentro dos 16 eixos temáticos.

O certificado de participação pode ser gerado pelo sistema de inscrições por quem se inscreveu com antecedência no congresso. Para quem efetuou sua inscrição presencialmente, o certificado será enviado por e-mail.

A declaração de presença, que é um documento que atesta que você esteve presente nas atividade do congresso mas não substitui o CERTIFICADO de participação, deve ser solicitada pelo formulário abaixo. A declaração de presença pode ser aceita em instituições para prestação de contas ou justificativa de falta. Há dois tipos de declaração: participação no congresso e apresentação de trabalhos.

Para emiti-las basta preencher os seguintes formulários abaixo:

Declaração de presença: https://forms.gle/zZt25ZzBnBf127Pu8

Declaração de apresentação: https://forms.gle/kk9svNK6xUwDQb9D9

Seguimos em rede!

Narrando suas próprias histórias através do cinema


Última sessão das mostras do I FICAECO no XI CBA destacou filmes de temática indígena; cineastas indígenas defenderam o uso do cinema como instrumento de luta

por Diogo Costa


Na aldeia Japuíra, no município de Bresnorte, no Mato Grosso, uma índia de etinia Myky desfruta o balaço em uma rede de algodão que ela mesma produziu. O vai-vem da rede embala seu descanso, e se transforma em uma cena do filme documentário “Jananã”, produzido pelos jovens índios Typju Myky, Minã Myky, Takarauky Myky, Njãsyru Myky, Atu’u Myky, Mãnynu Myky, Kamtinuwy Myky, Njãwayruku Myky, Kojayru Myky e Tipu’u Myky sobre a tradição de produção de redes de algodão por índias do seu povo.

O que se exibe no formato de grandes imagens no telão do cinema é o olhar de um povo sobre a sua própria história, contada por eles próprios e pela apropriação de recursos e linguagens do audiovisual para construção de um cinema legitimamente indígena, desde o tema até a produção. 

“Esses vídeos que a gente faz é uma forma de mostrar a nossa realidade. O que a gente sofre dentro da aldeia. Serve como luta para mostrar para outras pessoas que são de fora”, enfatizou o jovem Typju Myky, estudante de agroecologia que também pretende ser jornalista e cineasta.

Manynu Myky é da mesma aldeia e também estuda agroecologia. Ela pretende também ser jornalista e fotografa  “para tirar as fotos e mostrar para os outros povos que a gente pode ter tudo, fazer filmagem para mostrar pra eles como são nossas lutas. Como um amigo meu falou aqui. Através disso daí eu acho que a gente tem tudo para conseguir nossos direitos e mostrar a realidade do nosso povo, né, como a gente vive”. explicou Manynu porque deseja ser fotografa.

Typju e Manynu Myky falaram sobre suas experiências durante a produção do filme Jananã  no debate da última sessão da I Festival Internacional de Cinema Agroecológico (I FICAECO), que aconteceu entre os dias 05 e 07 de novembro no auditório da reitoria da Universidade Federal de Sergipe (UFS) como parte da programação do XI Congresso Brasileiro de Agroecologia (XI CBA). 

Typjy e Manynu compartilharam as falas do debate com Atu’u Myky, Minã Miky. Eles também participaram da produção do filme. Os índios Kleber Xukuru, da aldeia Pesqueira, em Pernambuco, e Marcelo Tingui, de Alagoas, falaram sobre os trabalhos audiovisuais que desenvolvem junto com suas comunidades. O criador do projeto Vídeo nas Aldeias, o cineasta Vicente Carelli entrou no debate após as falas indígenas e respondeu perguntas da plateia sobre seu filme "Antonio & Piti”, exibido na manhã do dia 07, mesmo dia do debate. 

Cinema como forma de luta

Eles destacaram a importância da apropriação do audiovisual como forma de luta pelos seus direitos através da produção de narrativas que contam as suas próprias vivências e experiências.

Kleber Xukuru trabalha há mais de 10 anos com audiovisual na produtora Ororubá Filmes, que fica na aldeia Pesqueira, em Pernambuco. Ele os incentivou os cineastas Mykys a utilizarem o cinema como instrumento de luta.

"Fico muito feliz em ver meus parentes aqui. Digo a eles que se puderem mesmo, utilizem o cinema como uma ferramenta de luta, igual a gente faz nos povos do Nordeste. Se articulando cada vez mais para utilizar o cinema como uma ferramenta de luta. Nossos documentários vão sempre atingir várias pessoas rapidamente, quando tá acontecendo algo no nosso território", destacou.

Ele completou sua fala defendendo que as produções também devem mostrar outros aspectos nas histórias." Não esperar vir matar um índio, uma coisa parecida, mas mostrar o que ocorre de bom também quando tem nosso território. Quando a gente tem o nosso território homologado, demarcado, a gente tem toda a proteção da mãe natureza, trabalhando com o ensino da agroecologia". 

Marcelo destacou que o cinema transpõe fronteiras. “Essa questão de usar o cinema e a agroecologia é importante porque o cinema alcança lugares sem limitações. Assisti documentários e fiquei muito satisfeito”, opinou. Em seguida ele demonstrou preocupação com o “rótulo” agroecologia, argumentando que o termo é utilizado pelo governo para promover propagandas enganosas e colocar dentro dos movimentos. Segundo ele o seu povo utiliza o termo “plantio limpo” em vez de agroecologia.

Respondendo ao questionamento de um participante da plateia sobre as dificuldades enfrentadas durante produções dos seus filmes, Typju Myky disse que teve dificuldades iniciais para manusear softwares de edição, destacando a dificuldade para aprender com os manuais em inglês. Como solução ele aprendeu a editar a partir da plataforma de criação de vídeos YouTube.




Além de Jananã, também foram exibidos na mostra principal da sessão de encerramento do I FICAECO “Terra Sagrada”, de Aishá Lourenço, que narra a agricultura ancestral dos povos Xukuru, mostrando o uso dos territórios para o cultivo de plantas e ervas medicinais, e “Laklãnõ/Xoklengo: órfãos do vale”, de Andressa Santa Cruz e Clara Camandolli, que apresenta a histórias de violências contra indígenas Laklãnõ/Xoklengo, construindo uma narrativa que aborda o genocídio indígena com a chegada de imigrantes, alagamentos de aldeias para construção de barragens e o assassinato do líder indígena Marcondes Namblá, em janeiro de 2018.



Antonio e Piti é um documentário do cineasta Vicente Carelli que narra a união amorosa entre personagens da história que dão nome ao filme. Ele é um índio peruano da etinia Ashaninka e a sua esposa, dona Piti, uma brasileira não indígena. Antônio e Piti foi o último filme exibido nesta edição do festival. 

Os cineastas receberam da organização do festival o troféu moldado em vidro e madeira Ana Primavesi, engenheira agrônoma austríaca-brasileira pioneira da agroecologia no Brasil e na América-Latina. Além dos cineastas o troféu também homenageou militantes, representantes de povos indígenas e quilombolas. As homenagens com o troféu Ana Primavesi fizeram da estrutura do FIAECO.




O Festival Internacional de Cinema Agroecológico no CBA

Em sua primeira edição no formato de festival, o FICAECO dividiu as exibições dos filmes em mostra principal, na qual foram apresentados 28 filmes selecionados entre os 138 inscritos, e mostra especial, que apresentou 7 filmes indicados em curadoria.

O festival também abriu espaço para apresentações de grupos de arte e povos indígenas, provocando emoções no público através da arte e da cultura. Na abertura das sessões das mostras da tarde do dia 06 o grupo Micorisa realizou uma apresentação artística.Na mesma tarde os índios da etnia Kariri-Xocó, do município sergipano de Porto da Folha entraram de surpresa no auditório da reitoria da UFS dançando, tocando instrumentos e cantando. Após se apresentarem o Cacique Bá pediu que todos presentes no auditório levantassem e dessem as mãos para que ele pudesse fazer uma oração indígena em seguida. Em reverência o público atendeu ao pedido. Neste dia o auditório estava com a sua lotação máxima esgotada.









Grupo Micorisa (MG) abre tarde do segundo dia das mostras; índios Kariri Xocó, de Sergipe, encerram sessões com oração indígena.
 Fotos: João Dorneles

As rodas de debates ao final das sessões das mostras principal e especial também compuseram a estrutura do FICAECO e proporcionaram diálogos entre o público presente e cineastas e documentaristas dos filmes do festival. Durante os debates os produtores das obras e representantes de instituições, povos e organizações convidados para as mesas de discussões compartilharam suas experiências e responderam questões da plateia.

Na abertura do Festival, no dia 5, a exibição dos filmes “ El costo humano de Los agrotóxico” e “Fabian, la sombra del êxito”, do fotojornalista e cineasta argentino Pablo Piovano, e “O Diagnóstico”, de Beto Novaes, pesquisador e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) nortearam as discussões dobre os impactos dos agrotóxicos para a saúde de trabalhadores de lavouras.  

Os documentaristas falaram sobre suas obras e responderam questões do público junto com Raquel Rigotto, médica e pesquisadora da Universidade Federal do Ceará e da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO), e por Margaret Matos, procuradora regional do trabalho do Ministério Público do Trabalho do Paraná (MPT-PR). A mediação do debate foi feita pela médica e pesquisadora da Universidade Federal do Cariri (UFCA) Ada Pontes. A temática dos danos causados pelo agrotóxico também foi destaque em outros espaços da programação da XI edição do CBA.  









              Fotos: Saulo Coelho

Nesta primeira edição em formato de festival o FICAECO recebeu filmes nas modalidades de curta, média e longa-metragem que abordaram questões agroecológicas a partir dos gêneros de ficção, animação, documentário, ou experimental de cineastas brasileiros e dos Estados Unidos, Colômbia, Argentina, Bolívia, Cuba.

O FICAECO integrou a programação do XI CBA, que acontece desde de 2003 com a participação de instituições de ensino, pesquisa e extensão e a sociedade civil envolvida com a agroecologia. 



Discussões apontam agroecologia como alternativa aos caminhos hegemônicos do mercado


Por Leonardo Maia

“Que história é essa de plantar de um jeito só. Plante com diversidade, pra natureza é melhor”.

Foi com esse refrão que as fiandeiras Penha e Neudo abriram o ritual de compartilhamento dos resultados dos debates nos Tapiris na Conferência Conjunta sobre “Manejo e economias dos agroecossistemas de base agroecológicas”, que ocorreu no XI CBA, na tenda Cacumbi.

Foto: Breno Batista

Após o ritual de encantamento, as fiandeiras abriram espaço para a troca de experiências, discutindo temas que propõem novas formas de pensar a economia, dando destaque para a agroecologia como forma alternativa e visibilização do trabalho da mulher nesses processos.

Luis Mauro, professor e pesquisador da UFPA (Universidade Federal do Pará), afirmou que a imposição da economia agroindustrial não tem conseguido minar, nem mesmo simplificar as produções familiares. Ele afirma que mesmo com a imposição desse modelo, nota-se que as trajetórias e o projeto de vida das famílias mostram processos de diversificação de um agroecossistema, ampliando a agrobiodiversidade.

Em seguida foi a vez de Luciano Marçal, assessor Técnico e membro do Núcleo da Coordenação da AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia. Ele trouxe para o debate propostas que nos convidam a repensar a economia, diante da crise de civilização, consequente do modo de produção capitalista, que põe em risco nosso planeta.

A proposta consiste em três pilares: construção de uma economia que rompa o divórcio entre economia e ecologia; retomada e apropriação da produção de riqueza nas mãos de quem trabalha; ruptura do caráter patriarcal que subjuga e explora o trabalho da mulher.

“A gente precisa fazer essa disputa através de propostas, de uma luta muito concreta, através das experiências que nós temos construído, para que de fato a gente consiga avançar na ruptura do caminho hegemônico, vertical, expropriador de território. Que a gente possa produzir economias circulares nos agrossistemas, nos territórios, capazes de valorizar a diversidade, capazes de promover processos cíclicos, para que o manejo econômico dos agrossistemas ande de par com os ciclos ecológicos da natureza”, conclui Marçal.

Por último Laetícia Jalli, do GT de gênero da ABA (Associação Brasileira de Agroecologia), falou sobre o trabalho fundamental das mulheres na agricultura familiar. Segundo ela, as cadernetas agroecológicas e a mesa sobre economias permitiu entender de outras economias, que são fundamentais pra a vida.

Ela ainda destacou que a produção da agricultura familiar, que representa mais de 70% dos alimentos que abastecem a mesa dos brasileiros, tem como protagonistas as mulheres, e que o trabalho da mulher é invisibilizado. Jalli também chamou atenção para o fato de que a economia não considera o trabalho de produção, reprodução e dos cuidados desenvolvidos pelas mulheres, razão pela qual defende o estabelecimento de diálogos entre a agroecologia e processos de visibilização do conhecimento das mulheres como sujeitos econômicos e políticos.

“As mulheres têm um papel determinante do que a gente chama de uma economia para a vida. De uma prática produtiva que leve em consideração não apenas a lógica de mercado, mas, sobretudo, uma lógica produtiva que leve para o autoconsumo, para as relações de troca, as relações de solidariedade e as relações de reciprocidade”, concluiu Jalli.

Cinema de resistência: abertura de Festival Internacional de Cinema Agroecológico denuncia danos à saúde de agricultorxs provocados pela exposição a agrotóxicos

Foto: Saulo Coelho


Com um olhar firme e voz altiva a agricultora paranaense relembra o que disse ao marido ao ser diagnosticada com intoxicação crônica: “não quero que ninguém fique ao meu lado por pena. Se ficar, que seja por amor”. O tom de voz muda quando ela mesma revela a resposta do marido: “aí ele me disse que não nos casamos apenas perante convidados, nos casamos diante de Deus. Estamos juntos há mais de 20 anos”, lembra.

A história descreve uma das cenas do documentário “O diagnóstico”, do pesquisador e cineasta Beto Novais, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que narra o diagnóstico de agricultores da lavoura do tabaco paranaense acometidos por doenças provenientes da exposição aos agrotóxicos. Junto com os filmes “El costo humano de los agrotóxicos” e “Fabián, la sombra del êxito”, do fotojornalista e cineasta argentino Pablo Paviano, as obras denunciaram os danos à saúde de agricultoras e agricultores do Brasil e da Argentina provocados pela longa exposição a venenos agrícolas.

Foto: Saulo Coelho

A temática abordada nos documentários mantém aquecidas as discussões sobre as liberações de agrotóxicos pelo governo federal em 2019. Os filmes integraram a mostra especial de abertura do Festival Internacional de Cinema Agroecológico (FICAECO), que ocorreu no dia 05, no auditório da reitoria da Universidade Federal de Sergipe. O festival segue até o dia 07, último dia da XI CBA.

Foto: Saulo Coelho

A abertura do FICAECO também contou com uma performance de dança de Diogo Souza, um dos organizadores do festival, que precedeu a mesa de abertura, composta por Pedro Serafim, procurador do Ministério Público e coordenador do Fórum Nacional de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos; Marcos Antônio, vice-presidente do de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (Fiocruz); Paulo Peterson, da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA) e Marina Marcon, diretora de projetos na Associação de Agricultura Orgânica da OAB/SP.

Também participaram da mesa de abertura os representantes indígenas da Ororubá Filmes de Pesqueira PE, Kleber Xukuru e Marcelo Tingui. Os representantes destacaram a arte cinematográfica como construção de um cinema ancestral e de empoderamento dos povos indígenas.

Foto: Saulo Coelho

A programação do FICAECO é dividida em mostras especiais, compostas por filmes indicados pela organização, e mostra principal, composta por 28 filmes selecionados para exibição no festival, que recebeu 138 inscrições de filmes. As mostra são sucedidas por rodas de debates com convidados e entrega de troféus do prêmio Ana Pimavesi. O prêmio é uma homenagem a pesquisadora e militante de origem austríaca que migrou para o Brasil na década de 1950, iniciando sua atuação como pesquisadora e militante do campo da agroecologia.
Foto: Saulo Coelho


Após a exibição dos filmes ocorreu um debate entre o público e os documentaristas Pablo Paviano e Beto Novais, Raquel Rigotto, médica e pesquisadora da Universidade Federal do Ceará (UFC) e Margaret Matos, procuradora regional do trabalho do Paraná (MPT- PR).

Os debatedores destacaram a importância da ate cinematográfica como forma de resistência e denúncia dos riscos à saúde causados pelo uso indiscriminado de agrotóxicos.

“O cinema é uma arte de disputa das dominações simbólicas produzidas pelas mídias hegemônicas. É por meio da arte que tem sido possível quebrar a hegemonia”, enfatizou Rigotto.

O FICAECO recebe a estrutura de festival internacional na XI edição do CBA. Em edições anteriores, os filmes eram exibidos em mostra audiovisual agroecológica, com abrangência nacional.

Foto: Saulo Coelho

“Decidimos ampliar a mostra, transformá-la em um festival. Não queríamos discutir apenas questões estéticas, mas aprofundar nas temáticas dos filmes, pensá-los na perspectiva da América Latina”, explicou Dagmar Talga, organizadora do festival.

Endereço: Universidade Federal de Sergipe - Campus São Cristóvão